sábado, 31 de janeiro de 2015

A Boa Mentira

A Boa Mentira (The Good Lie, Quênia / Índia / EUA, 2014) – Nota 7,5
Direção – Philippe Falardeau
Elenco – Reese Whiterspoon, Arnold Oceng, Ger Duany, Eammnuel Jal, Corey Stoll, Kuoth Wiel, Sarah Baker, Femi Oguns.

De 1983 até 2005, o Sudão sofreu com uma sangrenta guerra civil que deixou um número gigantesco de crianças orfãs, que ficaram conhecidas como “as crianças perdidas do Sudão”, tema que rendeu uma famoso documentário em 2003. Este drama ficcional do canadense Philippe Falardeau, utiliza esta terrível história como premissa. 

O longa é dividido em duas partes, começando nos anos oitenta numa pequena vila no sul do Sudão, quando soldados invadem o local com o objetivo de assassinar todos os moradores. Um grupo de crianças consegue escapar e inicia uma jornada de milhares de quilômetros no deserto em direção a Etiópia a princípio e depois para o Quênia, enfrentando fome, sede, animais selvagens e soldados. São pouco mais de meia-hora de duração que parecem demorar horas, não por ser um filme ruim, mas pelo sofrimento e a violência enfrentada pelas crianças. É de amolecer o coração do sujeito mais duro. 

A segunda parte se passa treze anos depois, em 2001, quando quatro sobreviventes daquela jornada, que moram num acampamento, são escolhidos para viverem nos Estados Unidos como refugiados. A partir daí a trama foca nas dificuldades de adaptação dos amigos ao novo país e principalmente com a nova cultura, além dos traumas que carregam pelo sofrimento que passaram, porém sem apelar para exageros. 

A personagem de Reese Whiterspoon surge como a responsável por ajudá-los a conseguir emprego e aos poucos cria um forte laço de amizade. 

Mesmo com alguns dramas, a parte final é mais leve, resultando até em sorrisos em algumas sequências. 

Como informação, na fase adulta, os sudaneses são interpretados por refugiados verdadeiros ou filhos destes que sofreram com a guerra no Sudão. 

Entendo que o objetivo do filme foi alcançado, equilibrar as emoções entre a tragédia e a esperança, com a mensagem de que para enfrentar obstáculos é sempre melhor estar acompanhado, além de mostrar a insanidade da guerra.   

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

The Hidden - O Escondido

The Hidden – O Escondido (The Hidden, EUA, 1987) – Nota 7,5
Direção – Jack Sholder
Elenco – Kyle MacLachlan, Michael Nouri, Claudia Christian, Ed O'Ross, Clu Gulager, Richard Brooks.

Uma onda de assassinatos assusta Los Angeles. Para investigar o caso é designado o detetive Beck (Michael Nouri), um sujeito durão que é obrigado a aceitar como parceiro o estranho agente do FBI Gallagher (Kyle MacLachlan). Beck acredita estar caçando um serial killer, sem saber que na verdade o assassino é um alienígena que tem o poder de trocar de corpo, possuindo o hospedeiro para cometer os crimes. 

Esta ficção B é um das pérolas do gênero dos anos oitenta, lembrando um pouco o ainda melhor “Eles Vivem” que John Carpenter comandou em 1988. 

A trama mistura os clichês dos filmes policiais, inclusive brigas, tiroteios e perseguições, com uma trama de ficção que poderia ter saído de algum filme dos anos cinquenta. 

O roteiro guarda também uma surpresa em relação ao agente interpretado por Kyle MacLachlan, que na época era especialista em personagens esquisitos (vide “Duna”, “Veludo Azul” e “Twin Peaks”). 

Vale destacar que entre os possuídos pelo alienígena estão Ed O’Ross, conhecido intérprete de vilões nos anos oitenta e a bela Claudia Christian ainda bem jovem. 

Finalizando, este é de longe o melhor trabalho do diretor Jack Sholder, que entre vários longas ruins na carreira, comandou “A Hora do Pesadelo II”, um dos piores filmes da franquia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Zuzu Angel

Zuzu Angel (Brasil, 2006) – Nota 6,5
Direção – Sergio Rezende
Elenco – Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Alexandre Borges, Luana Piovani, Aramis Trindade, Ângela Vieira, Flavio Bauraqui, Regiane Alves, Othon Bastos, Caio Junqueira, Paulo Betti, Nelson Dantas, Elke Maravilha, Paulo Betti.

No início dos anos setenta, a estilista Zuzu Angel (Patrícia Pillar) está no auge da carreira, inclusive conhecida fora do Brasil. Sua vida vira de ponta cabeça quando seu filho Stuart (Daniel de Oliveira) é preso pelos agentes da ditadura e desaparece. Stuart era um estudante que participava de um grupo revolucionário e que tinha pouco contato com a mãe. 

Decidida a encontrar o filho, Zuzu inicia sua peregrinação por quartéis do exército e da aeronáutica, posteriormente procurando ajuda com políticos e personalidades, comprando uma perigosa briga com a ditadura, tudo isto até sua morte em um suspeito acidente de automóvel em 1976. 

O diretor Sergio Rezende é especialista em transportar para as telas histórias reais, vide “Lamarca”, “O Homem da Capa Preta” e “Mauá – O Imperador e o Rei”, porém seu estilo é certinho demais, em alguns casos lembram as produções para tv, como este “Zuzu Angel”. 

A proposta do roteiro é mostrar a luta de uma mãe em busca do corpo do filho e de justiça, fato valorizado pela boa interpretação Patrícia Pillar. O que incomoda um pouco é a narração over da personagem principal, descrevendo uma carta onde conta sua trajetória de luta, até o momento em que acreditava estar marcada para morrer. 

As idas e vindas do roteiro tentam passar um estilo moderno, mas na realidade deixam a narrativa confusa, com lapsos de tempo mal explicados. 

A ingenuidade das frases ditas pelo personagem de Daniel de Oliveira e por sua esposa vivida por Leandra Leal também são constrangedoras. 

O resultado é um filme didático, que defende uma tese sobre os fatos ocorridos com a estilista, mas que deseja a deixar na questão da emoção e na narrativa.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Marty

Marty (Marty, EUA, 1955) – Nota 7,5
Direção – Delbert Mann
Elenco – Ernest Borgnine, Betsy Blair, Joe Mantell, Esther Minciotti, Jerry Paris, Karen Steele, Augusta Ciolli.

Marty (Ernest Borgnine) é um açougueiro de trinta e quatro anos que vive em uma casa no Bronx com a mãe (Esther Minciotti). Após ver todos seus irmãos e irmãs casarem, Marty é pressionado pela mãe para encontrar uma esposa. Cansado de ser ignorado pelas mulheres e complexado por ser achar gordinho e feio, Marty passa seus dias entre o trabalho e a companhia de alguns amigos no bar, principalmente de outro solteirão, Angie (Joe Mantell). 

Mesmo a contragosto, Marty aceita ir com os amigos a um salão de danças e o destino o faz cruzar o caminho da tímida professora Clara (Betsy Blair), com quem rapidamente cria um laço. O que pode ser o amor de sua vida, fica complicado quando os amigos dizem que a garota é feia e sua mãe fica preocupada em perder o único filho solteiro. 

Este simples e sensível drama foi a maior zebra da história do Oscar, além de ter faturado também a Palma de Ouro em Cannes, sendo o primeiro filme americano a conseguir tal feito. 

Muitos críticos de cinema não gostam do longa por causa da simplicidade da trama e pelo conteúdo da história parecer datado nos dias de hoje, porém para analisar com imparcialidade é necessário entender o contexto da época em que foi produzido. 

O roteiro coloca como protagonistas duas pessoas inseguras, que eram pressionadas pela sociedade para casar em uma época em que ficar solteiro depois dos trinta anos era algo incomum. O roteiro mostra também o outro lado das complicações de um casamento. Temos o casal de primos de Marty (Jerry Paris e Karen Steele) que passa por uma crise por causa de um bebê e da sogra que vive com eles. Vemos ainda as duas senhoras que desejam morar com os filhos com medo da solidão e o amigo que se sente excluído quando Marty conhece Clara . 

O interessante é que por trás dos personagens comuns e da trama simples, vemos pessoas que aos se sentirem ameaçadas passam a mentir, discutir e agir para defender seu desejo, mesmo prejudicando quem está ao seu redor.

Como curiosidade, os jovens utilizam duas estranhas gírias para rotular as garotas. As bonitas são chamadas de “tomatoes” (tomates) e as feias de “dogs” (cães).

Finalizando, vale destacar a belíssima interpretação de Ernest Borgnine, que lhe rendeu um Oscar e pode ser considerado o maior papel de sua carreira. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Larry Crowne

Larry Crowne – O Amor Está de Volta (Larry Crowne, EUA, 2011) – Nota 6
Direção – Tom Hanks
Elenco – Tom Hanks, Julia Roberts, Cedric the Entertainer, Taraji P. Henson, Bryan Cranston, George Takei, Gugu Mbatha Raw, Wilmer Valderrama, Holmes Osborne, Pam Grier, Ian Gomez, Rita Wilson.

Larry Crowne (Tom Hanks) é um ex-marinheiro de meia-idade que trabalha em um hipermercado. Considerado um ótimo funcionário, Larry é surpreendido ao ser dispensado por não ter formação universitária. 

Com uma hipoteca da casa para pagar, além de procurar emprego, Larry decide voltar à universidade, onde faz a matrícula em um curso de economia ministrado por um rígido professor oriental (George Takei) e também em uma classe de oratória, comandada por Mrs. Tainot (Julia Roberts), uma professora desiludida com a profissão e com o casamento. Aos poucos, nasce uma atração entre aluno e professora. 

Apesar de ter dirigido alguns trabalhos para tv, esta é apenas a segunda incursão de Hanks na direção de um longa. Infelizmente o filme deixa a desejar, muito pelo fraco roteiro escrito pelo próprio Hanks em parceira com a atriz Nia Vardalos (“Casamento Grego”). 

Comédias românticas são quase sempre previsíveis, o que dá um plus para um filme do gênero é a química entre os protagonistas, diálogos inteligentes e engraçados, além, de bons coadjuvantes. Neste longa nem mesmo o carisma de Hanks e o belo sorriso de Julia Roberts são suficientes. 

A história é ingênua e desconexa, os diálogos não convencem e vários coadjuvantes são esteriótipos sem graça, como o líder da gangue da scooter (Wilmer Valderrama) e os colegas de Larry na sala de aula. 

Finalizando, o subtítulo nacional também é péssimo, deixando a impressão de ser alguma produção para tv ou nome de novela.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pecados de Guerra

Pecados da Guerra (Casualties of War, EUA, 1989) – Nota 7,5
Direção – Brian De Palma
Elenco – Michael J. Fox, Sean Penn, Don Harvey, John C. Reilly, John Leguizamo, Thuy Thu Le, Erik King, Jack Gwaltney, Ving Rhames, Dale Dye.

Durante a Guerra do Vietnã, o novato soldado Eriksson (Michael J. Fox) é salvo pelo sargento Meserve (Sean Penn) durante uma missão. Eriksson é um jovem idealista que ingenuamente acredita que os soldados americanos estão na guerra para ajudar o povo vietnamita. 

Quando o grupo liderado por Meserve segue para uma nova missão, eles estão enfurecidos porque foram proibidos de “utilizar” os serviços de prostitutas durante a folga. Para aliviar o desejo e o ódio, o grupo decide sequestrar e estuprar uma jovem vietnamita. 

A princípio, Eriksson e o soldado latino Diaz (John Leguizamo) se negam a participar, porém com a pressão de Meserve e de outros dois soldados (Don Harvey e John C. Reilly), Diaz fica com medo de entrar em conflito e aceita participar do violento ato. Visto como um covarde e traidor, Erksson ainda tenta ajudar a garota, além de enfrentar o dilema de denunciar ou não seus companheiros de farda. 

Dois anos antes desta produção, o diretor Brian De Palma fez na minha opinião seu melhor filme da carreira, o sensacional “Os Intocáveis”, que se tornou grande sucesso e abriu caminho para ele escolher o projeto que quisesse. 

De Palma se baseou numa notícia de jornal sobre soldados que foram levados a corte marcial por terem cometido um crime semelhante para criar este doloroso filme sobre lealdade, violência e remorso. 

O longa fracassou nas bilheterias, muito pelo tema pesado e também pela grande quantidade de obras sobre o Vietnã que foram produzidas na segunda metade dos anos oitenta. 

Outro fato que fez os críticos detonarem o longa foi a escolha de Michael J. Fox para o papel principal. Pensar em Fox como soldado normalmente seria uma piada, porém a ideia de De Palma tinha todo sentido, pois o personagem era um jovem idealista e frágil, como milhares que foram enviados ao Vietnã sem imaginarem o que iriam enfrentar. 

Não é um filme ruim como os críticos pintaram, já que além da trama forte, tem ainda um ótimo elenco com Sean Penn e os então jovens John C. Reilly e John Leguizamo.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Cidadão Cohn

Cidadão Cohn (Citizen Cohn, EUA, 1992) – Nota 7,5
Direção – Frank Pierson
Elenco – James Woods, Joe Don Baker, Joseph Bologna, Ed Flanders, Frederic Forrest, Lee Grant, Pat Hingle, Josef Sommer, John McMartin, Tovah Feldshuh. John Finn, Allen Garfield, David Marshal Grant, Daniel Benzali, Joe Grifasi, Daniel Hugh Kelly, Peter Maloney, Jeffrey Nordling.

Nova York, 1986, o advogado Roy Marcus Cohn (James Woods) está internado em um hospital em estágio final de vida em decorrência da AIDS. Mesmo tendo a companhia apenas do jovem amante, Cohn se mostra arrogante, tratando de forma péssima os médicos e funcionários do hospital. Com a piora de seu estado, ele passa a sofrer alucinações, imaginando que pessoas que ele enfrentou e prejudicou no passado estão reaparecendo para acertar as contas. A partir daí, conheceremos a história de vida do sujeito em flashback. 

Este longa produzido pela HBO é baseado na biografia de Roy Cohn, que durante os anos cinquenta se tornou o braço-direito do senador Joseph McCarthy (Joe Don Baker) na caça aos comunistas. Cohn nasceu em 1927, sendo filho de um juiz honesto e de uma madame. Aparentemente doutrinado pela mãe, Cohn se tornou um sujeito extremamente ambicioso e com gosto pelo poder. Criou fama ao mandar para a cadeira elétrica o casal judeu Julius e Ethel Rosenberg, acusados de terem fornecido segredos para União Soviética. 

Após se aliar a McCarthy, ele passou a perseguir de forma oficial pessoas suspeitas de serem comunistas, além de judeus e homossexuais. Debaixo de sua obsessão em acusar, Cohn escondia suas origens judaicas e sua própria homossexualidade, que veio à tona quando fez de tudo para ajudar um amante (Jeffrey Norling) que fora convocado para o exército. 

Sua personalidade forte e desagradável, ainda o fez entrar em conflito com figuras famosas como Robert Kennedy (David Marshal Grant) e J. Edgar Hoover (Pat Hingle). No final da vida, Cohn era um dos sujeitos mais odiados da história americana. 

O filme disseca as situações mais importantes da vida do sujeito e tem como um dos pontos principais a grande atuação de James Woods. O ator que em outras oportunidades interpretou advogados controversos, inclusive na série “Shark”, aqui está perfeito no papel do arrogante, mentiroso e vingativo Roy Cohn.

sábado, 24 de janeiro de 2015

De Volta ao Jogo

De Volta ao Jogo (John Wick, EUA / Canadá / China, 2014) – Nota 7,5
Direção – Chad Stahelski
Elenco – Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Dean Winters, Adrianne Palicki, Bridget Moynahan, John Leguizamo, Ian McShane, Omer Barnea, Tony Leonard Moore, Daniel Bernhardt, Lance Reddick, Clarke Peters, David Patrick Kelly.

Após a morte da esposa (Bridget Moynahan), John Wick (Keanu Reeves) tenta superar o luto na companhia de um filhote de cão que a esposa deixou. Morando numa bela casa e com um mustang clássico totalmente restaurado como “brinquedo” pessoal, John é abordado por jovens russos em um posto de gasolina e mais tarde assaltado e espancado pelos sujeitos, que matam seu cão e roubam seu automóvel. Um dos jovens assaltantes é filho de um chefão da máfia russa (Michael Nyqvist da trilogia “Millenium”), que fica assustado ao descobrir que a vítima é John Wick, seu “ex-funcionário” que fazia serviços como assassino profissional. 

Estava armada a premissa para o clássico filme de vingança, porém a partir deste momento o roteiro dá uma guinada e leva a trama à beira da paródia, mesmo que jamais faça o espectador rir. Algumas situações como o hotel/clube de assassinos e o “limpador” de cenas de crimes, bebem na fonte dos filmes de Tarantino. 

O diretor Chad Stahelski, que aqui estrou na função, tem uma longa carreira como dublê, inclusive tendo sido o substituto de Keanu Reeves na trilogia “Matrix”. Sua experiência como dublê foi fundamental nas ótimas sequências de ação, que diferente dos filmes atuais que focam em efeitos especiais, aqui o personagem de Reeves resolve tudo na base da porrada, de facadas e tiros à queima-roupa. Estas sequências lembram os filmes de ação dos anos oitenta, em que o protagonista eliminava dezenas de capangas até chegar ao vilão principal, porém com uma roupagem moderna e estilosa. 

É um filme para não ser levado a sério, a proposta é divertir o espectador que gosta do gênero.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dedé Mamata, A Cor do Seu Destino & Um Trem Para as Estrelas


Antes de embarcar na aventura de produzir "Chatô", se enrolar todo com o dinheiro envolvido nas filmagens e ver a carreira quase afundar, Guilherme Fontes protagonizou três filmes que fizeram algum sucesso entre os jovens nos anos oitenta.

Mesmo sendo filmes irregulares, muito por causa da época em que o cinema brasileiro estava em baixa, Fontes tinha tudo para se tornar um astro de cinema caso seguisse apenas como ator e participasse da chamada "retomada" que começou em 1995 com "O Quatrilho" e "Carlota Joaquina".

Como informação, no ano passado Fontes deu entrevistas dizendo que estava finalizando a montagem de "Chatô" e que logo o filme seria lançado. Se isto ocorrer, provavelmente o filme fará sucesso pela curiosidade em relação aos vinte anos de polêmicas em relação a produção.

Dedé Mamata (Brasil, 1988) – Nota 7
Direção – Rodolfo Brandão
Elenco – Guilherme Fontes, Malu Mader, Marcos Palmeiras, Iara Jamra, Paulo Porto, Luiz Fernando Guimarães, Lídia Matos, Nathália Thimberg, Paulo Betti, Geraldo Del Rey, Tônico Pereira, Antonio Pitanga, Thais de Campos.

O jovem Dedé (Guilherme Fontes) teve o pai assassinado durante a ditadura e foi criado pelos avós (Nathália Thimberg e Paulo Porto) que eram vinculados ao Partido Comunista. Com a morte da avó em meados dos anos setenta, Dedé fica sozinho com o avô que entra numa espécie de depressão profunda. 

Sem emprego, cuidando do avô e vivendo da aposentadoria do velho, Dedé aceita trabalhar para o Partido recolhendo dinheiro que seria utilizado para a “revolução”. Ao invés de devolver todo o dinheiro, Dedé se associa ao traficante Cumpade (Luiz Fernando Guimarães) para vender drogas na faculdade onde estuda seu amigo Albino (Marcos Palmeira). No meio desta situação, Dedé se envolve ainda com a bela vizinha Lena (Malu Mader) e com a agitada Ritinha (Iara Jamra). 

Em meio as produções brasileiras dos anos oitenta, em sua maioria filmes ruins, este “Dedé Mamata” se destaca pela interessante história e o carisma do elenco. O filme se passa no Rio de Janeiro entre 1974 e 1979, numa época em que a repressão do governo perdia força a cada ano. A trama faz um retrato da juventude carioca, mesmo que de forma superficial, que descobria o mundo das drogas e do sexo fácil, ao mesmo tempo em que a questão política direta ou indiretamente influenciava suas vidas. 

A cena final que cita a volta dos exilados políticos e define o destino de Dedé, é um reflexo das mudanças que começavam a ocorrer no país. Era o fim da repressão oficial e o início da violência do tráfico. 

A Cor do Seu Destino (Brasil, 1987) – Nota 6
Direção – Jorge Duran
Elenco – Guilherme Fontes, Norma Bengell, Franklin Caicedo, Andrea Beltrão, Júlia Lemmertz, Chico Diaz, Marcos Palmeira, Antônio Grassi, Paulinho Mosca, Anderson Muller.

O jovem Paulinho (Guilherme Fontes) é filho do exilado chileno Victor (Franklin Caicedo) e da brasileira Laura (Norma Bengell), que saíram do Chile quando seu filho mais velho (Chico Diaz) foi preso acusado de ser comunista e assassinado pela polícia do general Pinochet. 

Atormentado pela morte do irmão e pelo traição da namorada (Andrea Beltrão), que tem um caso com um professor (Antônio Grassi), Paulinho deseja voltar ao Chile, porém seus pais não aceitam, muito porque uma sobrinha do casal (Júlia Lemmertz) está presa em Santiago. 

Produzido numa época em que o cinema brasileiro estava em baixa, um pouco antes da grave crise do início dos anos noventa, este longa tem uma interessante premissa ao abordar a vida de exilados políticos. 

O diretor Jorge Duran é um chileno que vive no Brasil desde os anos setenta e se aproveitou da ditadura em seu país para escrever o roteiro. O problema é que o filme se perde na crise existencial do protagonista, que se mostra mais como um garoto mimado do que alguém preocupado com política ou algo do gênero. O personagem de Guilherme Fontes não passa empatia alguma ao público. 

O filme vale como curiosidade para quem gosta ou quer conhecer um pouco do estilo do cinema brasileiro dos anos oitenta.

Um Trem Para as Estrelas (Brasil, 1987) – Nota 6
Direção – Carlos Diegues     
Elenco – Guilherme Fontes, Milton Gonçalves, Taumaturgo Ferreira, Ana Beatriz Wiltgen, Zé Trindade, Míriam Pires, José Wilker, Betty Faria, Daniel Filho, Tania Boscoli, Cazuza, Fausto Fawcett, Marcos Palmeiras.

No subúrbio carioca, Vinícius (Guilherme Fontes) vive com o tio em um apartamento de classe baixa e sonha em ser tornar um saxofonista famoso. Sua namorada Nicinha (a inexpressiva Ana Beatriz Wiltgen) trabalha como vendedora em uma loja de shopping na zona sul e tem os pés no chão, acredita que eles precisam ganhar dinheiro antes de sonhar com a fama. 

Após uma noite de sexo ao ar livre, Nicinha desaparece. Vinícius procura a polícia, sendo atendido pelo cínico delegado Freitas (Milton Gonçalves), que garante que encontrará garota, mas também diz ter certeza que ela se meteu em alguma contravenção. Em paralelo, Vinícius recebe o convite para tocar em estúdio com Cazuza (ele mesmo), além de precisar lidar com seu amigo Dream (Taumaturgo Ferreira), que deseja conseguir dinheiro para morar nos Estados Unidos. 

O diretor Carlos Diegues vinha do enorme fracasso de “Quilombo”, quando decidiu investir neste longa voltado para os jovens, inserindo inclusive cenas musicais com Cazuza e Fausto Fawcett, ícones da época. O problema é que a trama na se sustenta, são várias pontas soltas em meio ao roteiro que atira para todos os lados. 

Da investigação policial inicial, o protagonista em seguida procura ajuda de um jornalista (Daniel Filho), precisa lidar com os malucos pais de sua namorada (Zé Trindade e Míriam Pires) e ainda cruza o caminho de situações absurdas como a jovem santinha milagreira e a garota que deseja engravidar. 

Não gosto do estilo de Cacá Diegues, com exceção do interessante “Bye Bye Brasil”, seus filmes resultam em críticas sociais rasas e histórias que parecem não ir ao lugar algum. É um diretor que tem muito mais fama do que talento. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Lutador de Rua

Lutador de Rua (Hard Times, EUA, 1975) – Nota 7,5
Direção – Walter Hill
Elenco – Charles Bronson, James Coburn, Jill Ireland, Strother Martin.

Década de trinta, durante a Depressão Americana, Chaney (Charles Bronson) chega de trem a New Orleans sem dinheiro algum no bolso, apenas com o talento para lutar. Logo, ele descobre as lutas clandestinas na periferia da cidade e consegue ganhar algum dinheiro.

Seu talento chama a atenção de Speed (James Coburn), um espécie de agenciador de lutas que conhece bem o submundo. Os dois unem forças e começam a lucrar com as vitórias de Chaney. A chance da dupla em mudar de vida com o dinheiro se complica quando o vício de Speed em jogos de azar resulta numa enorme dívida, que somente poderá ser paga com Chaney aceitando encarar um sujeito de Chicago em uma luta sem regras e sem público. 

Nos anos sessenta, Charles Bronson ficou famoso como coadjuvante em vários clássicos como “Fugindo do Inferno” e “Era Uma Vez no Oeste”, para na década seguinte se transformar em astro principal de sucessos como “Os Segredos da Cosa Nostra” e “Assassino a Preço Fixo”. 

Este “Lutador de Rua” é um dos melhores filmes de sua carreira como protagonista, muito pela ótima direção de Walter Hill, que estreou na função e acertou no tom de desesperança que existia nos anos trinta. O estilo cru de Hill se casou perfeitamente com o protagonista durão de poucas palavras interpretado por Bronson, contrastando ainda com o falador Speed vivido por James Coburn. 

Vale lembrar que na época Bronson estava com cinquenta e quatro anos, mas aparentava estar na casa dos trinta por causa da excelente forma física. 

O elenco tem ainda Jill Ireland, a esposa de Bronson na vida real, que como sempre interpretava o par romântico do ator, além do veterano Strother Martin, eterno coadjuvante de westerns.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Bronson

Bronson (Bronson, Inglaterra, 2008) – Nota 6
Direção – Nicolas Winding Refn
Elenco – Tom Hardy.

Por mais que parte da crítica rasgue elogios para os trabalhos de Nicolas Winding Refn, até agora seu único filme que me agradou foi “Drive”. Assisti ainda o péssimo “Medo X” e o pretensioso “Apenas Deus Perdoa”. 

Mesmo sendo considerado cult, “Bronson” é uma versão amalucada e surreal da vida de Michael Peterson (Tom Hardy), o presidiário mais famoso da Inglaterra. 

Peterson foi preso em 1974 após assaltar uma agência dos correios. Como ele desejava ficar famoso, decidiu “assumir” o nome de Charlie Bronson, em homenagem ao astro de filmes policiais e se envolveu em dezenas de brigas e rebeliões, tomando guardas como reféns e solicitando coisas malucas como helicópteros e metralhadoras como resgate. 

Ele ficou preso por catorze anos, saiu em 1988 e em menos de três meses voltou para a cadeia, local que ele considera sua casa, mesmo tendo passado boa parte da vida na solitária. Hoje o sujeito continua preso e famoso pelas reportagens e livros escritos sobre sua vida. 

O destaque do filme é a atuação de Tom Hardy, que incorpora o maluco violento de forma assustadora e que carrega o longa praticamente sozinho. O sucesso do papel catapultou a carreira de Hardy, hoje um dos grandes astros de Hollywood. 

É um filme estranho que incomoda, com sequências surreais que alguns comparam a “Laranja Mecânica”, porém está longe de ser uma grande obra. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Coherence

Coherence (Coherence, EUA / Inglaterra, 2013) – Nota 8
Direção – James Ward Byrkit
Elenco – Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon, Lorene Scafaria, Elizabeth Gracen, Hugo Armstrong, Alex Manugian, Lauren Maher.

Um grupo de amigos se reúne em uma casa no subúrbio para um jantar na mesma noite em que um cometa passará pela Terra. O jantar começa com conversas normais misturadas com algumas ironias entre os convidados. Nada diferente do que ocorre neste tipo de encontro, apenas com um detalhe, os celulares pararam de funcionar. 

De repente as luzes se apagam e eles percebem que apenas uma casa no final da rua continua com energia. Dois amigos decidem ir até o local para tentar contato pelo telefone com o irmão de um deles que é físico, porém descobrem algo totalmente inusitado. Eles voltam assustados carregando uma caixa com fotos. A partir daí, a noite se transforma numa busca maluca pela verdade, seja ela qual for. 

Bebendo na fonte de filmes de ficção cults como “Primer”, “Lunar” e “Crimes Temporais”, o diretor e roteirista James Ward Byrkit brinca com temas ligados à física, como buracos negros, viagem no tempo, realidade paralela e até a famosa experiência do gato na caixa, entregando um ótimo longa que ainda explora os dramas pessoais dos personagens. 

A situação crítica faz vir à tona mentiras, segredos e traições entre os personagens, todos muito bem delineados, com destaque para Emily Baldoni. A personagem da atriz é a que “descobre” o que realmente aconteceu e que tenta utilizar a situação para resolver uma pendência, criando um final que dá margem a várias interpretações. 

O filme é uma ótima surpresa, uma ficção com pitadas de drama extremamente original.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Entrevista

A Entrevista (The Interview, EUA, 2014) – Nota 6,5
Direção – Seth Rogen & Evan Goldberg
Elenco – James Franco, Seth Rogen, Lizzy Caplan, Randall Park, Diana Bang, Timothy Simons, Reese Alexander.

Aaron Rapaport (Seth Rogen) é o produtor de um programa de entrevistas especializado em escândalos com celebridades comandado por Dave Skylark (James Franco). Quando o produtor de um famoso programa jornalístico tira um sarro do trabalho de Rapaport, considerado algo descartável, este decide mudar o foco do show. 

A princípio Skylark não aceita a ideia de Rapaport, mas muda completamente quando descobre que o ditador da Coréia da Norte, Kim Jong Un (Randall Park), é um grande fã do programa. A dupla decide então tentar entrevistar o recluso ditador. Após conseguirem marcar a entrevista, eles são procurados pelo FBI, que deseja utilizá-los para assassinar o ditador. 

Esta premissa maluca e totalmente hilária, atinge apenas parte do objetivo de fazer rir com a absurda ditadura norte-coreana. Algumas situações são bem engraçadas, principalmente as cenas com o ditador interpretado por Randall Park. A recepção festiva com direito a mulheres, bebidas e até um passeio de tanque é o ponto alto. 

O filme perde pontos com a insistência nas piadas escatológicas, que se mostram sem graça e repetitivas. Rogen e Goldberg tem talento para explorar o humor politicamente incorreto de forma mais engraçada. 

É curioso analisar como James Franco consegue intercalar com competência papéis em dramas, blockbusters e comédias escrachadas. 

Finalizando, mesmo com o espectador dando algumas risadas, o filme não vale toda a polêmica por causa da “ofensa” ao maluco Kim Jong Un.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Sem Evidências

Sem Evidências (Devil’s Not, EUA, 2013) – Nota 7
Direção – Atom Egoyan
Elenco – Colin Firth, Reese Whiterspoon, Alessandro Nivola, James Hamrick, Dane DeHaan, Seth Meriwether, Kristopher Higgins, Kevin Durand, Amy Ryan, Rex Linn, Robert Baker, Bruce Greenwood, Mireille Enos, Elias Koteas, Matt Letscher, Julie Ivey.

Em 1993, numa pequena cidade do Arkansas, três garotos desparecem e depois de alguns dias seus corpos são encontrados num local conhecido como “Devil’s Not”, uma espécie de pântano no meio da floresta. 

A polícia pressionada para solucionar o caso, deixa várias pistas de lado e baseando-se na duvidosa confissão de um jovem com problemas mentais, decide que ele e outros dois adolescentes são os culpados. Um dos garotos (James Hamrick) é arredio, se veste de preto e diz gostar de estudar bruxaria, o que faz com que a polícia acredite que a mortes das crianças estejam ligadas a um ritual de magia negra. 

Vendo que a situação poderia levar três jovens possivelmente inocentes para o corredor da morte, o investigado particular Ron Lax (Colin Firth) se une aos advogados de defesa e passa a investigar o caso por contra própria, descobrindo fatos que foram omitidos pela polícia. 

O diretor canadense Atom Egoyan se baseou no famoso caso real dos “Três Garotos de West Memphis”, para contar os bastidores do processo, o péssimo trabalho da polícia e o pré-julgamento da mídia que influenciou diretamente o juri e até o mesmo juiz. 

Eu ainda não tive oportunidade de conferir o documento que a HBO produziu sobre o caso real. É um doc chamado “Paradise Lost”, que foi dividido em três partes e tem um total de seis horas e meia de duração. 

As duas horas de filme tentam condensar a grande quantidade de informações que vieram à tona durante o julgamento, como a faca com sangue encontrada com um dos pais das crianças mortas e que nunca fui periciada, o jovem perturbado que fugiu da cidade após o desaparecimento das crianças, a estelionatária que forjou um depoimento falso do filho pequeno para não ter que cumprir pena e várias outras situações que contaminaram o processo, mas que foram ignoradas pela justiça. 

No filme, vale destacar a atuação contida de Colin Firth como o decidido investigador e a surpreendente Reese Whiterspoon como a sofrida mãe de uma das crianças mortas. 

É bom citar que o estilo de Egoyan é até certo ponto frio, a narrativa chega a ser lenta em alguns momentos e seus personagens geralmente são pessoas sofridas ou que escondem segredos. 

Longe de ser um grande filme, vale a sessão para quem deseja saber um pouco mais sobre uma sinistra história real.