terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Vento Será Tua Herança

O Vento Será Tua Herança (Inherit the Wind, EUA, 1960) – Nota 10
Direção – Stanley Kramer
Elenco – Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna Anderson, Harry Morgan, Claude Akins, Elliott Reid.

Na pequena cidade de Hillsboro no Oregon, o professor de ciências Bertram Cates (Dick York) é preso por ensinar a teoria da evolução de Darwin. A extrema religiosidade dos habitantes da cidade, exacerbada pelo discurso do Reverendo Brown (Claude Akins), faz com que o professor seja tratado como criminoso. 

O insólito caso chama atenção do país inteiro e atrai para cidade figuras conhecidas que desejam defender seu lado. O ex-candidato a presidente Matthew Harrison Brown (Fredric March) é recebido como herói por apoiar a punição ao professor, inclusive tomando o posto de promotor.

Por outro lado, o advogado liberal Henry Drummond (Spencer Tracy) assume a defesa do acusado, contando ainda com apoio de um jornalista (Gene Kelly). Assim, o circo está armado para um disputa de crenças, ideais e egos. 

Mais de cinquenta depois de ser lançado, este belíssimo longa ainda se mostra extremamente atual. O roteiro mexe num verdadeiro vespeiro ao colocar em discussão a crença em Deus e na Bíblia, confrontada com os avanços da ciência.

Os ótimos diálogos questionam situações da Bíblia que não tem explicação lógica, aquelas em que as pessoas acreditam pela fé. Além disso, vemos também como a religião é utilizada para dominar o povo menos esclarecido e até mesmo incitar o ódio a quem pensa diferente, situação que continua igual nos dias atuais. 

O embate de ideais no tribunal entre Spencer Tracy e Fredric March é fantástico, enquanto o personagem de Gene Kelly é o alívio cômico que solta frases cínicas a cada aparição. 

O filme é todo em preto e branco e baseado numa história real ocorrida em 1925. 

É um longa obrigatório para quem gosta de discussões profundas sobre a disputa entre religião e ciência.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Demolição

Demolição (Demolition, EUA, 2015) – Nota 7
Direção – Jean Marc Vallée
Elenco – Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis, C.J. Wilson, Polly Draper, Heather Lind.

Um acidente de automóvel causa a morte de Julia (Heather Lind), enquanto o marido Davis (Jake Gyllenhaal) sai ileso. Durante o funeral e os dias posteriores, Davis não demonstra sentimento algum. Seu relacionamento com o sogro (Chris Cooper), que é seu chefe também, começa a se deteriorar pela falta de interesse do rapaz pelo trabalho. 

Procurando ver a vida de uma forma diferente, David começa a desmontar objetos e tomar atitudes estranhas, como enviar cartas de reclamação para uma empresa, fato que atrai a curiosidade em uma desconhecida (Naomi Watts). 

Os trabalhos do diretor canadense Jean Marc Vallée geralmente apresentam protagonistas que precisam encontrar um caminho na vida para superar traumas, crises e dúvidas. A morte da esposa desperta o personagem de Gyllenhaal da apatia que ele escondia. Além do prazer pela demolição, o sujeito também passa a falar verdades incômodas. 

É um filme diferente, interessante em alguns momentos, com personagens fora do comum e mediano no resultado. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Fome

Fome (Hunger, Inglaterra / Irlanda, 2008) – Nota 7,5
Direção – Steve McQueen
Elenco – Michael Fassbender, Liam Cunningham, Stuart Graham, Brian Milligan, Liam McMahon.

Prisão Maze, Irlanda do Norte, 1981. Os detentos ligados ao IRA, o Exército Republicano Irlandês que defende a independência da Irlanda do Norte, se negam a usar os uniformes de presidiários e são tratados como terroristas, pois muitos foram detidos após cometerem assassinatos e atentados à bomba. 

Vivendo como animais em celas imundas e sendo espancados vez por outra pelos guardas, um dos seu líderes chamado Bobby Sands (Michael Fassbender), decide iniciar uma greve de fome como forma de protesto, sendo seguido por outros e resultando em tragédia. 

O diretor Steve McQueen, do posteriores “Shame” e “Doze Anos de Escravidão”, estreou em um longa com este drama pesadíssimo baseado em uma história real. É um filme para pessoas de estômago forte, daqueles em que o espectador é colocado à prova frente a situações limites, violência e humilhações. A lentidão proposital da narrativa transmite uma angústia ainda maior. 

Um dos destaques é a atuação visceral de Michael Fassbender, que repetiria o estilo em “Shame”. Uma sequência é sensacional. O diálogo entre o personagem de Fassbender e o padre vivido por Liam Cunnigham com a câmera focando os dois sentados em lados opostos de uma mesa, tem a duração de quinze minutos sem cortes, com direito a mais quatro ou cinco minutos de conversa posterior. O conteúdo da conversa é também uma belíssima explicação sobre o porquê da greve de fome e os sentimentos dos envolvidos em relação a luta do IRA contra o governo inglês. 

Está longe de ser um filme para o público comum.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Homem do Tai Chi

O Homem do Tai Chi (Man of Tai Chi, EUA / China / Hong Kong, 2013) – Nota 5,5
Direção – Keanu Reeves
Elenco – Keanu Reeves, Tiger Hu Chen, Karen Mok, Hai Yu, Qing Ye.

O jovem “Tiger” Chen Lin Hu (Tiger Hu Chen) estuda a arte marcial Tai Chi com o mestre Yang (Hai You). O mestre procura ensinar Tiger a utilizar o Tai Chi para encontrar paz e harmonia entre corpo e mente, enquanto o jovem transforma o aprendizado em luta. 

Tiger se destaca durante um campeonato de artes marciais e chama a atenção do empresário Donaka Mark (Keanu Reeves), que comanda um clube de lutas clandestino em Hong Kong. Atraído pelo dinheiro e pela adrenalina das lutas, Tiger se envolve sem imaginar que pode ser um caminho sem volta. 

A estreia do ator Keanu Reeves como diretor se salva apenas pelas boas cenas de lutas. O roteiro é previsível, com direito a um clímax que comprova as motivações idiotas do personagem de Reeves, que interpreta o vilão da trama. 

As interpretações também são lamentáveis. Reeves está mais canastrão do que nunca e o até então dublê Tiger Hu Chen não demonstra carisma algum, tendo competência apenas nas cenas de luta. 

Quem gosta do gênero poderá se divertir com as lutas, mas mesmo assim, muitos longas semelhantes produzidos em Hong Kong são melhores até mesmo neste quesito.   

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Godzilla (1998 e 2014)


Godzilla (Godzilla, EUA / Japão, 1998) – Nota 5,5
Direção – Roland Emmerich
Elenco – Matthew Broderick, Jean Reno, Maria Pitillo, Hank Azaria, Kevin Dunn, Michael Lerner, Harry Shearer, Doug Savant, Vicky Lewis.

Na sequência inicial, vemos os testes nucleares realizados na Polinésia em 1954 e um lagarto com seus ovos. Décadas depois, o governo americano encontra enormes pegadas no Panamá, que não se assemelham a animal algum conhecido. Para analisar as pegadas é enviado o cientista Niko Tatopoulos (Matthew Broderick), especialista em mutações de DNA. Logo, ele descobre que o animal está seguindo em direção a Nova York. No rastro do animal, seguem o cientista, uma aspirante a jornalista (Maria Pitillo) e um cinegrafista (Hank Azaria), além do exército liderado por um oficial linha dura (Jean Reno). 

Massacrado pela crítica, este blockbuster tem o estilo Roland Emmerich de cinema, com uma explosão de efeitos especiais, muito barulho, correria e diálogos engraçadinhos, além de personagens mal desenvolvidos. Apesar de Matthew Broderick ser um bom ator, seu habitat natural é a comédia. Sua escolha para ser o protagonista de uma ficção de ação foi um grande erro. Não se pode esquecer também dos constrangedores “Bebês Godzillas”. 

É um filme totalmente esquecível.

Godzilla (Godzilla, EUA / Japão, 2014) – Nota 6
Direção – Gareth Edwards
Elenco – Aaron Taylor Johnson, Ken Watanabe, Bryan Cranston, Elizabeth Olsen, Sally Hawkins, Juliette Binoche, David Straithairn, Richard T. Jones, Victor Rasuk.

Em 1999, um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Serizawa (Ken Watanabe) descobre o corpo de um enorme animal pré-histórico em uma ilha das Filipinas. Aparentemente, o animal deu a luz a um filhote que desapareceu no mar. No mesmo período, um terremoto atinge uma usina nuclear no Japão. Quinze anos depois, Joe Brody (Bryan Cranston), um dos sobreviventes da tragédia da usina, ainda investiga o caso. Obcecado em descobrir a verdade, Joe praticamente arrasta seu filho Ford (Aaron Taylor Johnson) para ajudá-lo. 

Esta nova versão de “Godzilla” começa muito bem, com um clima de tensão e suspense durante o desastre da usina, em sequências valorizadas pelas ótimas presenças de Bryan Cranston e Juliette Binoche. Por sinal, o personagem de Cranston é o melhor do filme. 

Infelizmente, a sequência da história é repleta de furos, situações absurdas e personagens mal desenvolvidos. O talentoso japonês Ken Watanabe e a ótima inglesa Sally Hawkins são totalmente desperdiçados. A parte final melhora um pouco quando a ação se torna o ponto principal e o Godzilla o protagonista. 

O resultado é mais um blockbuster vazio.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Renascido das Trevas

Renascido das Trevas (Blood Creek, EUA, 2009) – Nota 6
Direção – Joel Schumacher
Elenco – Henry Cavill, Dominic Purcell, Emma Booth, Michael Fassbender, Rainer Winkelvoss, Shea Whigham.

Em 1936, a família alemã Wollner recebe em sua fazenda na região de West Virginia, o historiador Richard Wirth (Michael Fassbender), que foi enviado pelo governo de Hitler aparentemente para uma pesquisa. O que eles não imaginavam é que a missão de Wirth é encontrar uma enorme pedra nórdica que está escondida na fazenda e supostamente utilizar seus poderes para criar a vida eterna. 

A trama pula para os dias atuais, quando o paramédico Evan (Henry Cavill) recebe em sua casa a inesperada visita de seu irmão Victor (Dominic Purcell), que estava desaparecido há dois anos. Desesperado, Victor procura armas e praticamente arrasta Evan para uma caçada num local afastado. 

Joel Schumacher é um diretor que não segue estilo algum. Ele já se aventou por todos os gêneros, do drama exagerado ao gore, do romance ao terror adolescente e do musical até a guerra. Considero seus dois melhores filmes o divertido “Os Garotos Perdidos” e o ótimo “Um Dia de Fúria”, provavelmente o trabalho pelo qual ele será lembrado no futuro. 

A premissa deste “Renascido das Trevas” é ao mesmo tempo maluca e intrigante ao misturar nazistas, ocultismo e runas nórdicas no meio de uma zona rural americana. Mesmo numa fase decadente da carreira, Schumacher consegue imprimir um ritmo alucinante com cenas de ação recheadas de sangue e violência. O problema principal é o roteiro maluco cheio de falhas e as explicações que não convencem. 

O final ainda deixa um gancho para a sequência da história, porém o fracasso do longa enterrou qualquer possibilidade de continuação.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Bicho de Sete Cabeças & O Beijo da Mulher Aranha


Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2001) – Nota 7,5
Direção – Lais Bodanzky
Elenco – Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Daniela Nefussi, Jairo Mattos, Caco Ciocler, Gero Camilo, Altair Lima, Marcos Cesana, Luís Miranda.

No início dos anos setenta, Neto (Rodrigo Santoro) é um jovem rebelde de classe média. Ele é detido após cometer um pequeno delito, fato que obriga seu pai (Othon Bastos) a buscá-lo na delegacia. Ao voltar para casa, seu pai encontra um cigarro de maconha no quarto de Neto e junto com a mãe (Cássia Kiss) e a filha mais velha (Daniela Nefussi), eles decidem internar o jovem em um manicômio. É o início do inferno na vida do garoto, que terá de enfrentar descaso, violência e maus tratos dentro da instituição. 

Este drama pesado é baseado na vida real de Austregésilo Carrano Bueno, que foi internado num manicômio por seu próprio pai, numa época em que qualquer menção as drogas levava os pais a histeria. 

O longa foi premiado em alguns festivais e a interpretação de Rodrigo Santoro bastante elogiada. O resultado é um retrato cruel das instituições psiquiátricas brasileiras. 

O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman, Brasil / EUA, 1985) – Nota 6,5
Direção – Hector Babenco
Elenco – William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, Nuno Leal Maia, José Lewgoy, Denise Dumont, Miriam Pires.

Durante uma ditadura em um país qualquer da América do Sul, dois prisioneiros são obrigados a conviver em uma cela e acabam se aproximando apesar das diferenças entre si. Valentin (Raul Julia) é um preso político que foi torturado, enquanto Molina (William Hurt) é um homossexual que cumpre pena por ter se relacionado com um menor. Para manter sua sanidade, Molina cria histórias como se fossem filmes românticos, fato que a princípio irrita o militante Valentin. 

O longa foi indicado ao Oscar de Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Ator (William Hurt), chamando grande atenção na época do lançamento por causa da história que misturava temas polêmicos como homossexualismo e ditadura. 

Apesar de ter muitos fãs, principalmente entre os críticos de cinema, visto hoje o impacto é bem menor. Pessoalmente prefiro outros filmes de Babenco como “Pixote”, “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” e até o criticado “Carandiru”.