sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Revista Set

A revista Set foi publicada durante vinte e dois anos, de julho/1987 a setembro/2009 e marcou época como um grande veículo de informações para os cinéfilos brasileiros.

Lembro quando um colega de trabalho apareceu com a revista nº 1 (foto da capa ao lado) com Mickey Rourke na capa, ele que era o astro do momento após o grande sucesso de "Nove e Meia Semanas de Amor".

Numa época em que não existia internet, a tv por assinatura ainda não havia chegado ao país e o provavelmente o único programa sobre cinema e vídeo no Brasil foi o ótimo Cinemania apresentado por Wilson Cunha e que foi ao ar de 1988 a 2003 na extinta TV Manchete, a Set se transformou em revista obrigatória para os cinéfilos.

Tenho a coleção completa, inclusive com algumas edições especiais de Terror e Ficção e posso afirmar que muito do meu conhecimento sobre cinema vem desta revista. Hoje falta espaço para guardar a coleção, por isso ela está na casa de minha mãe. As vezes até penso em vendê-la, mas o lado sentimental é contrário.

Nos primeiros anos a revista trazia um encarte com cartazes originais de clássicos do cinema, com a ficha técnica completa na parte de trás do cartaz, material de primeira qualidade que muitas pessoas fizeram coleção.

Outro ponto positivo nos primeiros anos era o enfoque. Além de dar atenção aos grandes lançamentos, a revista também trazia comentários dos diversos lançamentos em vídeo (vhs), que explodiram na época com a popularização do videocassete e a chegada das grandes distribuidoras ao mercado. Lembro por exemplo que a MGM entrou no mercado do Brasil com um pouco de atraso, mas mesmo assim explodiu nas vendas lançando logo de cara toda a coleção 007.

A revista apresentava ótimas matérias também sobre clássicos do cinema, filmes de arte e longas brasileiros. Foi assim que conheci mais sobre as carreiras de Kurosawa, Fellini, John Ford, Hitchcock, entre outros. Aprendi também como funcionavam as produções da Boca do Lixo e as grandes diferenças entre Hollywood e o cinema europeu.

Uma ótima sessão era a coluna de Dulce Damasceno de Brito, que viveu em Hollywood nos anos cinquenta, fez amizade com vários astros e estrelas e escrevia textos sobre aquela época com extrema simplicidade, muitas informações de bastidores e com muito carinho pelos amigos.

Com o passar dos anos a revista teve várias mudanças, inclusive de editores e colaboradores. O foco também mudou durante o tempo, aos poucos a revista produzido para o cinéfilo foi se transformando numa publicação voltada para o consumidor de cinema, aquele que deseja apenas as novidades, os grandes lançamentos.

O que comentarei a seguir é uma opinião pessoal sobre o fim da revista. A partir do início dos anos 2000, a revista se voltou totalmente para o cinema comercial, principalmente após o sucesso do primeiro "O Senhor dos Anéis" e de "O Homem-Aranha" em 2002, o longa que alavancou a Marvel e deu início a uma série de filmes de super heróis. Nesta época, o editor (não citarei o nome) e seus colabores basicamente transformaram a revista num reino de nerds, onde edição após edição apresentavam capas com novos blockbusters e entrevistas exclusivas com jovens atores e diretores destas produções, quase sempre feitas em outros países, em sets de filmagens, pré-estreias ou hotéis de luxo.

Voltando aos primeiros anos, muitas coisa publicada eram entrevistas traduzidas feitas por jornalistas estrangeiros ou por correspondentes brasileiros que vivam nos Estados Unidos e na Europa, e por sinal com um conteúdo melhor que a bajulação da última década.

Um dos motivos do fim da revista foi a crise do mercado editorial, mas analisando como administrador, não deixa de ser um absurdo gastar com viagens frequentes ao exterior para fazer uma entrevista, quando hoje existem diversos meios mais baratos para isso. Ao meu ver a revista se tornou um reino onde um pequeno grupo aproveitava as benesses, não se importando com os custos. Acredito que a revista poderia continuar circulando até hoje com uma qualidade melhor sem a necessidade destes gastos, com um política de pé no chão.

Além do conteúdo dos últimos anos, o que me chateou foi a forma como a revista acabou e um fato que presenciei, ou melhor, li no Orkut em 2009. De uma hora pra outra a revista sumiu e os assinantes foram abandonados, sem explicação alguma. Do nada apareceu um sujeito do Jornal do Brasil afirmando que o jornal comprou a revista e eles seriam os responsáveis por uma reformulação, deixando claro que havia um descontentamento com o editor anterior.

Fui pesquisar para entender melhor a situação e procurei a comunidade da Set no Orkut. Existia uma tópico principal no fórum onde vários assinantes e cinéfilos perguntavam sobre a situação. O dono da comunidade era o antigo editor da revista, que para minha surpresa respondia com no mínimo indelicadeza aos questionamentos, como se fosse o dono da verdade. Ficou claro que ele não aceitava perder o trono, era uma briga de egos.

Esta mudança durou duas ou três edições e logo o editor antigo, o sujeito do Orkut, anunciou que ele voltaria para revista. Uma última edição foi às bancas em setembro de 2009 com Brad Pitt na capa caracterizado pelo papel em "Bastardos Inglórios".

Algumas boatos apareceram sobre o retorno da revista, mas nada aconteceu. É uma pena que uma revista que marcou época e que tinha público fiel tenha acabado desta maneira.

7 comentários:

Suzane Weck disse...

Ola caro amigo,me lembro muito bem desta revista,mas não cheguei a colecionar.E lendo teu excelente texto,fiquei muito bem informada á respeito dos acontecimentos que resultaram no seu término.Foi realmente uma pena.Um bom fim de semana e meu grande abraço.SU.

Gilberto Carlos disse...

Também adorava a Revista Set e tenho quase todas as edições. Eu também era assinante e fui passado para trás quando a revista desapareceu de uma hora para outra. Uma pena. Eu devorava a revista em pouco tempo e acabei lendo as edições antigas algum tempo depois. Hoje sou assinante da Preview, que pelo menos é honesto e nunca atrasou na entrega da revista para os assinantes.

Amanda Aouad disse...

Marcou época mesmo, colecionava os cards com a ficha técnica e ainda tenho muitos exemplares da revista aqui, da qual fui assinante por anos.

Mas, ela foi caindo mesmo de qualidade e as novas opções, principalmente pela internet, começaram a diminuir o interesse, tanto que deixei de ser assinante antes da crise final, ainda bem, já que não queria ser enganada como muitos foram.

Clenio disse...

Concordo totalmente com sua opinião a respeito da fase final da SET, emk que ela tornou-se difícil de ler pra quem tinha mais de 15 anos de idade e não fosse fã de "Senhor dos Anéis" ou qualquer coisa relacionada a quadrinhos. O início áureo, em que se falava de CINEMA - na concepção maior do termo - ficou perdido no final dos anos 90. Saudade dos bons tempos do jornalismo cinematográfico brasileiro.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Hugo disse...

Suzane - Era uma revista única sobre cinema, mas que se perdeu pelo caminho e acabou de forma triste.

Gilberto - Eu demorei um pouco para saber da Preview e depois cheguei a ler algumas edições, mas não tive vontade colecionar.

Amanda - A internet poderia ser utilizada como uma aliada nas vendas, mas para isso a revista se manter seria necessário diminuir os
gastos para se adaptar ao novo mercado, o que infelizmente não ocorreu.

Clênio - Este foi um dos grandes erros da revista, acreditar que sobreviveriam no mercado com conteúdo voltado apenas para adolescentes.

Abraço

Celo Silva disse...

Sem dúvida, a Set deixou de ser boa faz anos. Culpa do seu editor ególatra, mas enfim, não deixou de alimentar os cinéfilos de outrora. Já leu a Preview? Não é uma maravilha, mas consegue trazer reportagens interessantes.

Abração.

Hugo disse...

Celo - Li algumas edições da Preview. Gostei, mas não tive vontade de colecionar.

Abraço