domingo, 20 de janeiro de 2013

Boleiros


Boleiros – Era Uma Vez o Futebol (Brasil, 1998) – Nota 8
Direção – Ugo Giorgetti
Elenco – Adriano Stuart, Flavio Migliaccio, Otavio Augusto, Lima Duarte, Cassio Gabus Mendes, Wandi, André Abujamra, Marisa Orth, Denise Fraga, RogÉrio Cardoso, Elifas Andreato, João Acaiabe.

Numa mesa de bar, alguns ex-jogadores de futebol e um ex-árbitro contam histórias engraçadas e até dramáticas sobre o mundo do futebol. O diretor paulistano e palmeirense Ugo Giorgetti procurou destacar fatos comuns e histórias folclóricas do futebol, principalmente situações ocorridas entre os anos sessenta e final dos anos oitenta, para criar um verdadeira homenagem ao esporte e principalmente aos seus personagens. 

São seis pequenas histórias ligadas pelos comentários dos amigos no bar. Temos a do juiz ladrão, a do moleque de rua craque de bola que está envolvido com marginais, a do jogador no hotel que tenta enganar o técnico para levar uma garota para cama e a do craque revelação que está para ser vendido pro exterior e ao mesmo tempo foge das responsabilidades com o filho. As duas melhores histórias são a do jogador que consegue se recuperar de uma contusão após consultar um pai de santo e a do craque do passado que hoje vive na miséria, mas continua sendo orgulhoso. 

No ótimo elenco, vale destacar o falecido Rogério Cardoso como um ex-árbitro, Flávio Migliaccio que faz um ex-jogador amargurado com o presente e o músico André Abujamra como o pai de santo Vavá. Por sinal, Abujamra também é o responsável pela trilha sonora do longa. 

Como curiosidade, o bar retratado aqui é inspirado no Bar do Elias, um ponto de encontro de personagens do futebol nos anos setenta e oitenta localizado próximo ao estádio do Palmeiras. 

O resultado é um filme delicioso, principalmente para quem gosta de futebol e das histórias do passado deste esporte.

Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos (Brasil, 2006) – Nota 7
Direção – Ugo Giorgetti
Elenco – Cássio Gabus Mendes, Flávio Migliaccio, Paulo Miklos, Adriano Stuart, Otávio Augusto, Lima Duarte, Silvio Luiz, Sócrates, Wandi, Denise Fraga, Petrônio Gontijo, Fulvio Stefanini, Duda Mamberti, Suzana Alves, Walter Portella.

Esta continuação do longa de 1998 muda o foco. Aqui o diretor Ugo Giorgetti procura mostrar os bastidores do futebol atual, onde tudo envolve dinheiro, modernidade e marketing, mas o conteúdo é bem menos rico. Além de ser inferior ao original, este enfoque do lado sujo do futebol ajudou a diminuir a aceitação do longa. 

Novamente o longa se passa num bar, porém agora aquele local com cara de buteco se transformou num bar temático, onde o dono Aurélio (o narrador Silvio Luiz) tem como sócio um famoso jogador que atua na Europa. Os jogadores do passado ainda tem uma mesa, porém agora ficam isolados no mezanino observando a fauna de pessoas que estão no local à espera do jogador famoso. 

O roteiro aqui cria uma história principal, tendo um empresário malandro (Paulo Miklos) que precisa lidar com a ex-namorada do jogador e também com uma advogada que representa o irmão do craque, sujeito que está preso e que deseja uma quantia para não contar a história da família na imprensa. 

Enquanto isso, na mesa dos veteranos apenas três histórias são contadas, duas apenas razoáveis. A do falso jogador argentino (Petrônio Gontijo) e a de Nestor (Walter Portella), um sujeito que chega do México tentando convencer a todos que era um jogador famoso. A melhor história é a de Barbosa (Duda Mamberti), um auxiliar do treinador Edil (Lima Duarte repetindo o papel do filme anterior), que sonha em dirigir o time e tem a chance quando o esquentado Edil é expulso durante um clássico, porém o destino será cruel com o pobre Barbosa. 

No final fica claro que tanto esta sequência, como a época atual foram implacáveis com o futebol, esporte que hoje se transformou num negócio onde o dinheiro é o carro chefe.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Hatfields & McCoys

Hatfields & McCoys (Hatfields & McCoys, EUA, 2012) – Nota 8
Direção – Kevin Reynolds
Elenco – Kevin Costner, Bill Paxton, Matt Barr, Tom Berenger, Powers Boothe, Andrew Howard, Jena Malone, Sarah Parish, Mare Winningham, Lindsay Pulshiper, Ronan Vibert, Noel Fisher, Boyd Holbrook, Tom McKay, Sam Reid.

Baseado num conflito real ocorrido entre as famílias Hatfield da Virginia Ocidental e McCoy do Kentucky após o final da Guerra Civil Americana, esta minissérie com quase cinco horas de duração produzida pelo History Channel é um ótimo western que resgata os melhores momentos do gênero. 

O conflito começa quando Anderson “Devil Anse” Hatfield (Kevin Costner) abandona o exército confederado por acreditar que a guerra já estava perdida e não é acompanhado por seu amigo Randall McCoy (Bill Paxton), que passa o considerá-lo um desertor. Quando a guerra acaba, Randall volta para casa e descobre que seu irmão fora assassinado por Jim Vance (Tom Berenger), tio de Anse e que sua família passa por dificuldades, enquanto os Hatfields prosperam no comércio de madeira. 

A disputa por um porco, o amor proibido entre Johnse Hatfield (Matt Barr) e Roseanna McCoy (Lindsay Pulshiper), junto com dois assassinatos, dão início a uma guerra que destruirá as duas famílias, deixando vários mortos dos dois lados. 

A produção de primeira qualidade, a ótima história, as boas cenas de ação e o elenco competente (Kevin Costner venceu o Emmy e o Globo de Ouro de Melhor Ator e Tom Berenger venceu o Emmy de Ator Coadjuvante) são os pontos de destaque da minissérie. 

A curiosidade principal é ver o astro Kevin Costner e o diretor Kevin Reynolds trabalharem juntos novamente após dezoito anos. Os dois eram amigos na juventude, inclusive com Costner antes da fama estrelando “Fandango”, que foi a estreia de Reynolds na direção. Após se tornar astro, Costner praticamente impôs a escalação de Reynolds como diretor aos produtores de “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões”. O filme fez grande sucesso e a dupla partiu para um terceiro trabalho, o fracassado “Waterworld”. A amizade acabou numa terrível briga em meio a estouro de orçamento e cenários destruídos por um furação. Reynolds largou a produção antes do final, com Costner assumindo como diretor mas mantendo o ex-amigo nos créditos. Apenas em 2010 os dois se reaproximaram e logo surgiu o projeto deste “Hatfields & McCoys”, que se tornou merecido sucesso na tv americana.   

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Cinco Vezes Favela

Cinco Vezes Favela (Brasil, 1962) – Nota 6,5
Direção – Marcos Farias, Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues e Leon Hirszman
Elenco – Flávio Migliaccio, Waldir Onofre, Oduvaldo Vianna Filho, Cláudio Corrêa e Castro, Milton Gonçalves, Francisco de Assis, Glauce Rocha.

Considerado um dos marcos iniciais do chamado Cinema Novo, está obra dividida em cinco episódios dirigidos por jovens diretores é ao mesmo tempo interessante e irregular. Vale destacar que os diretores eram jovens da classe média carioca que decidiram iniciar a carreira utilizando como tema principal uma realidade diferente de suas raízes, a favela. 

O primeiro episódio dirigido por Marcos Farias é o melhor na minha opinião. Com o título de “Um Favelado”, conta a história de um sujeito (o ótimo Flávio Migliaccio) que sem dinheiro para pagar o aluguel do barraco onde vive com mulher e filho na favela, acaba se envolvendo num assalto mal sucedido. 

A segundo história chamada “Couro de Gato” foi dirigida por Joaquim Pedro de Andrade (“Macunaíma”) e apesar de constar ter sido premiada no exterior, é apenas razoável. Mostra alguns garotos que roubam gatos na época do carnaval para vendê-los a pessoas que usam seu couro para fabricar tamborins. 

A terceira história é “Zé da Cachorra” de Miguel Borges. A trama com conotação política e social gira em torno de um político que deseja expulsar um grupo de pessoas de uma parte da favela que não pagam aluguel, para no local construir um empreendimento. O tal Zé da Cachorra se torna o líder dos favelados e toma a frente para impedir a expulsão das famílias. 

A quarta história é “Escola de Samba Alegria de Viver” dirigida por Carlos Diegues (“Bye Bye Brasil”), que mostra um sujeito (Oduvaldo Vianna Filho) que se torna presidente de uma escola de samba após dar uma espécie de golpe e precisa enfrentar dívidas e rivais para poder fazer a escola desfilar no carnaval. É o típico filme de Diegues, que mistura música e drama porém com resultado vazio. 

O episódio final dirigido por Leon Hirszman tem o título de “Pedreira de São Diego” e já mostra o estilo contestador do diretor. A história mostra um grupo de trabalhadores de uma pedreira que se revoltam quando o capataz manda explodir um local que afetará os barracos da favela onde eles moram. Hirszman faleceu cedo, mas deixou o ótimo "Eles Não Usam Blakc-Tie”, drama sobre as greves no ABC paulista durante os anos setenta. 

Em 2010, Carlos Diegues produziu uma espécie de sequência do longa chamado “Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos”, filme com cinco episódios dirigidos por cineastas nascidos na favela que mostravam sua visão sobre o local.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

The Investigation & The Life

The Investigation (The Investigation, Canadá, 2002) – Nota 7,5
Direção – Anne Wheeler
Elenco – Nicholas Lea, Lochlyn Munro, Reece Dinsdale, David Warner, Paul Coeur, Duncan Fraser.

Baseado na história real de um serial killer que violentou e matou várias mulheres em British Columbia no Canadá, esta produção para a tv canadense prende a atenção do espectador que gosta de filmes que se seguram por um bom roteiro, sem apelar para cenas de ação. 

No início, o policial Darryll Kettles (Lochlyn Munro) prende um suspeito pelos crimes, porém como o caso é grande, ele é obrigado a entregar o sujeito para uma unidade de crimes especiais. Por falta de provas, o suspeito é solto e novos crimes ocorrem. Neste meio tempo, outro policial, Les Forsythe (Nicholas Lea, o agente Kricek da série “Arquivo X”) passa a investigar o homem, mas também esbarra na burocracia da justiça, inclusive entrando em conflito com seus superiores. Quando o caso chama atenção da mídia, um superintendente da polícia (o veterano David Warner) cria uma força tarefa para tentar resolver a situação. 

O longa lembra o posterior e superior “Zodíaco” de David Fincher, onde vários policiais investigam o mesmo caso de forma separada e esta falta de união transforma a situação num grande fiasco. 

Mesmo com as limitações da tv, vale a sessão para quem gosta de investigações complexas.

The Life (The Life, Canadá, 2004) – Nota 7,5
Direção – Lynne Stopkewich
Elenco – Bruce Greenwood, Brian Markinson, Alisen Down, Nicholas Campbel, Nancy Sivak, Terry Chen, Duncan Fraser, John Cassini.

A dupla de policiais Arnie (Bruce Greenwood) e Tony (Brian Markinson) foram criados num bairro pobre de Vancouver e hoje trabalham no mesmo local, tendo de encarar traficantes e viciados. Pensando em fazer algo para melhorar a vida no local, a dupla começa a filmar depoimentos de viciados e pessoas do bairro para serem apresentados as crianças como modo de evitar que eles se envolvam com as drogas. Quando uma das pessoas que deram seu depoimento é assassinada, os policiais precisam investigar o caso e descobrir quem é o responsável pelo crime. 

Esta interessante produção canadense para tv mistura drama com história policial para mostrar a vida num bairro pobre e violento do país. O roteiro mostra que o combate as drogas não deve ser encarado apenas como caso policial, mas sim com um problema social que deve ser combatido de outras formas, inclusive através da educação nas escolas. Esta mistura resulta num bom filme. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Experiência

A Experiência (Das Experiment, Alemanha, 2001) – Nota 8
Direção: Oliver Hirschbiegel
Elenco: Moritz Bleibtreu, Christian Berkel, Maren Eggert, Justus Von Dohnanyy, Oliver Stokowski, Andréa Sawatzki, Edgar Selge.

Este interessante filme com uma história original foi dirigido pelo alemão Oliver Hirschbiegel antes do ótimo "A Queda! As Últimas Horas de Hitler" e do criticado "Os Invasores". 

Aqui uma corporação coloca um anúncio num jornal com a intenção de contratar doze homens para uma experiência que consiste em colocá-los numa prisão por duas semanas, sendo que seis homens serão escalados como prisioneiros e os outros seis como guardas, para análise de comportamento em uma ambiente controlado. 

No início, os homens agem como estivessem em uma brincadeira onde ganhariam um dinheiro fácil, porém aos poucos a coisa começa a ficar séria, gerando tensão entre os grupos e alguns personagens em especial, o que poderá acabar em tragédia. 

O ótimo tema que é desenvolvido com talento, tem como ponto principal o relacionamento que se cria com a convivência em grupo e como os líderes surgem naturalmente, conseguindo manipular seus pares, tanto para o bem como para o mal. 

Os destaques do elenco são Moritz Bleitbreu de "Corra Lola, Corra", que faz o papel do prisioneiro que começa levando na tudo na brincadeira, mas que terá de mudar o comportamento para se tornar um líder e Christian Berkel, que trabalharia novamente com Hisrchbiegel em "A Queda!", como um personagem a princípio apenas observador entre os prisioneiros, que se mostrará de grande importância durante a trama. 

Para quem gosta de filmes com temas originais, boas cenas de suspense e ação, além de um interessante estudo sobre comportamento humano em grupo, este filme é uma ótima pedida. 

Como curiosidade, o roteiro e baseado em parte da história real de uma experiência nos mesmos moldes realizada na Alemanha. 

Finalizando, o longa tem uma versão americana chamada “Detenção”, com Forest Whitaker e Adrien Brody. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Memórias de um Assassino

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok, Coréia do Sul, 2003) – Nota 9
Direção – Joon Ho Bong
Elenco – Kang Ho Song, Sang Kyung Kim, Roe Ha Kim, Jae Ho Song, Hie Bong Byeon.

Em 1986, numa pequena cidade do interior da Coréia do Sul, duas mulheres são encontradas mortas da mesma forma em dias e locais diferentes. As garotas foram amarradas, violentadas e estranguladas. 

A investigação fica por conta de dois detetives que desejam resolver rapidamente o caso, mesmo que acusem o sujeito errado. Um dos detetives é Park (Kang Ho Song de “O Hospedeiro”) e o outro é o violento Cho (Roe Ha Kim), que juntos utilizam até mesmo de tortura para conseguir uma confissão. 

Para auxiliar na investigação, chega na cidade o detetive Seo (Sn Kyung Kim), um jovem que trabalha na capital do país, em Seul e tem como característica analisar os detalhes seguindo o estilo americano de investigação, mesmo com pouquíssimos recursos a disposição. Logo, a truculência de Park e o jeito calado de Seo criam um conflito entre os sujeitos, que pensam e investigam de formas completamente diferentes. 

Baseado na história real de um serial killer que atacava mulheres entre 1986 e 1991 na Coréia do Sul, este trabalho do mesmo diretor do ótimo “O Hospedeiro” é um belíssimo longa que mistura o que de melhor existe nos filmes policiais americanos com o estilo oriental de contar uma história. 

O roteiro ainda tem toques políticos ao citar que na época a Coréia do Sul estava sob um ditadura e diariamente ocorria um toque de recolher, além de algumas cenas rápidas sobre a repressão da polícia e do exército contra manifestantes durante uma visita do presidente. 

Aqui a tensão em busca do assassino se torna crescente e cria algumas ótimas sequências, como a perseguição a pé pela cidade que termina numa enorme pedreira, além da bela fotografia das cenas inicial e final que se passam no mesmo campo onde ocorreu o primeiro assassinato. 

A história e a narrativa lembram filmes como “Seven” e “Zodíaco”, dois ótimos trabalhos de David Fincher.

Praticamente desconhecido, este ótimo longa policial merece ser descoberto pelos fãs do gênero. 
   

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

C.H.U.D.

C.H.U.D. (C.H.U.D., EUA, 1984) – Nota 7
Direção – Douglas Cheek
Elenco – John Heard, Daniel Stern, Christopher Curry, Kim Greist, Eddie Jones, George Martin, John Befdord Lloyd, John Goodman, Jay Thomas.

Em Nova York, pessoas comuns começam a desaparecer numa determinada região, inclusive a esposa do capitão de polícia Bosch (Christopher Curry). Durante a investigação, Bosch chega até A. J. (Daniel Stern), um sujeito que tem um espaço para servir alimentação a moradores de rua e este alega que nas últimas semanas pelo menos doze pessoas sumiram na região, sendo que todas viviam nos esgotos da cidade. Em paralelo, o fotógrafo George Cooper (John Heard) que fez fotos com estas pessoas do subsolo, desconfia que algo de errado está acontecendo quando uma das moradoras dos esgotos o leva para ver outro sujeito que foi atacado por algo desconhecido e está muito ferido. 

Este misto de terror e ficção B é quase um cult, apesar de desconhecido por aqui em virtude de não ter passado pelos cinemas na época e ter sido lançado apenas em VHS. 

A história segue o estilo dos longas do gênero dos anos cinquenta, escondendo o monstro do público durante boa parte da trama, criando um interessante suspense até a parte final quando explode a violência e o sangue. 

O baixo orçamento é compensando com criatividade e com o clima da história, que mostra uma Nova York suja e ameaçadora, principalmente o horrível esgoto onde se passa parte da trama. 

Como curiosidades, o longa rendeu uma continuação em 1989, que pela sinopse parece ser apenas um caça-níquel. A outra curiosidade é que os atores John Heard e Daniel Stern voltariam a trabalhar juntos em “Esqueceram de Mim”. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os Crimes de Snowtown

Os Crimes de Snowtown (Snowtown, Austrália, 2011) – Nota 7,5
Direção – Justin Kurzel
Elenco – Lucas Pittaway, Daniel Henshall, Louise Harris, Anthony Groves.

Em 1999, na cidade de Snowtown no interior da Austrália, Elizabeth Harvey (Louise Harris) é uma mulher divorciada que vive num bairro pobre com três filhos, tendo ainda um quarto filho que pouco aparece no local, sendo este o mais velho. Elizabeth flerta com um vizinho, mas logo se revolta ao descobrir que o sujeito abusou de seus três filhos, inclusive do adolescente Jamie (Lucas Pittaway). 

O fato faz algumas pessoas da comunidade se reunirem para discutir o assunto, situação que faz emergir a figura de John (Daniel Henshall), que se apresenta como alguém indignado com a falta de atitude da polícia e que pensa em resolver o assunto por conta própria. Ao mesmo tempo, John se envolve com Elizabeth e se aproxima dos três filhos, criando quase uma relação de pai e filhos. Com Jamie a relação se torna mais profunda, John passa a atuar como uma espécie de mentor, o que a princípio parece ser algo bom, mas aos poucos ele demonstra sua verdadeira face, colocando na cabeça do jovem seus pensamentos homofóbicos e preconceituosos, envolvendo ainda o garoto numa série de crimes. 

Este pesadíssimo drama australiano é baseado numa história real que chocou o país, sendo a estreia na direção de Justin Kurzel, que optou por contar uma história fragmentada, bem longe de ser didática, mostrando aos poucos a verdadeira motivação dos crimes e todo o horror daquela situação absurda. 

O elenco é ótimo, o jovem Lucas Pittaway lembra o falecido Heath Ledger, inclusive na melancolia e submissão de como cria seu personagem, que é ao mesmo tempo vítima e cúmplice. Vale destacar também o desenvolvimento do personagem de Daniel Henshall, que mostra um olhar frio de psicopata em várias sequências, alternando com cenas em família onde deixa a impressão de ser um bom padrasto. 

Esta escolha em apresentar o dia a dia da vida de um psicopata, que nesses momentos geralmente age como uma pessoa normal, foi outro acerto do diretor Kurzel. 

O resultado é um filme de difícil digestão, que inclui ainda cenas de violência, tortura e estupro.    

sábado, 12 de janeiro de 2013

Medos Privados em Lugares Públicos

Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, França / Itália, 2006) – Nota 7
Direção – Alain Resnais
Elenco – Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier, Lambert Wilson.

No inverno em Paris, três homens e três mulheres se cruzam em busca de companhia. O solteirão Thierry (André Dussollier) é um corretor de imóveis que sente atração por sua colega de trabalho Charlotte (Sabine Azéma), que guarda um segredo e também tem um segundo emprego como enfermeira do pai de Lionel (Pierre Arditi), que por sua vez trabalha como bartender em um hotel tendo como cliente o desempregado Dan (Lambert Wilson), que passa por um crise com a noiva Nicole (Laura Morante). Completando o elenco, temos a jovem Gaelle (Isabelle Carré), irmã de Thierry que procura um amor através de encontros no escuro. 

Esta ciranda de relacionamentos é contada de modo sensível pelo veteraníssimo diretor francês Alain Resnais, que começou a carreira nos anos quarenta, que tinha oitenta e quatro anos na época do lançamento deste filme e hoje aos noventa ainda está na ativa. 

Longe de ser um grande filme, vale a sessão pelo ótimo desempenho do elenco, pelas pequenas e tristes histórias dos personagens solitários e a parte técnica que pontua as sequências com uma neve intermitente.  

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Filmes B com Duplas Policiais

Dois Policiais em Apuros (Running Scared, EUA, 1986) – Nota 6
Direção – Peter Hyams
Elenco – Gregory Hines, Billy Crystal, Steven Bauer, Darlanne Fluegel, Joe Pantoliano, Jimmy Smits, Dan Hedaya, Jon Gries, Tracy Reed.

A dupla de policiais Ray (o falecido Gregory Hines) e Danny (Billy Crystal) após muito trabalho conseguem prender o traficante Julio Gonzales (Jimmy Smits). A dupla sai de férias para Key West na Flórida, onde pretendem se aposentar em breve, porém ao saber que o traficante pagou fiança, eles voltam para Chicago atrás do sujeito. 

Este fio de história é apenas um detalhe para as boas cenas de ação, com destaque para a perseguição de carro nos trilhos do metrô, intercaladas com diálogos engraçadinhos entre os protagonistas e algumas cenas descartáveis na Flórida. 

O filme foi claramente inspirado no sucesso de “Um Tira da Pesada”, mas mesmo sendo divertido é inferior ao quase clássico com Eddie Murphy. 

As Duas Faces da Lei (Gang Related, EUA, 1996) – Nota 6
Direção – Jim Kouf
Elenco – James Belushi, Tupac Shakur, Lela Rochon, Dennis Quaid, James Earl Jones, David Paymer, Wendy Crewson, Gary Cole, Terrence T. C. Carson, Brad Greenquist, James Handy, Kool Moe Dee.

Dois policiais corruptos, Da Vinci e Rodriguez (James Belushi e Tupac Shakur) ganham um dinheiro extra negociando drogas e em seguida matando os traficantes. Em um destes golpes eles matam um policial disfarçado e tentam encobrir o crime utilizando o testemunho falso de uma stripper (Lela Rochon), amante de Da Vinci e ainda incriminam um morador de rua (Dennis Quaid) que sequer lembra o próprio nome. 

Com um premissa interessante, o filme dá a impressão que poderia deslanchar para um bom drama policial, porém o roteiro confuso desperdiça bons atores como Quaid, James Earl Jones e David Paymer em papéis mal delineados e na relação entre os dois policiais e seus contatos de rua. Em alguns momentos a história parece pender para a comédia, mas logo a trama fica séria e termina em tragédia. Infelizmente o diretor e roteirista Jim Kouf, que escreveu o roteiro do bom “Tocaia”,  não soube conduzir a trama e desperdiçou o bom elenco em um filme que poderia ser muito melhor.  

Tiras Especiais (Number One with a Bullet, EUA, 1987) – Nota 4
Direção – Jack Smight
Elenco – Robert Carradine, Billy Dee Williams, Valerie Bertinelli, Peter Graves, Doris Roberts, Mykelti Williamson, Bobby DiCicco, Jon Gries.

Os detetives Barzak e Hazeltine (Robert Carradine e Billy Dee Williams) não conseguem proteger uma testemunha crucial num caso de tráfico de drogas que acaba assassinada. Barzak acredita que alguém dentro da polícia está ligado ao assassinato, ao mesmo tempo em que passa por um crise pessoal ao tentar reatar seu casamento. Além disso, a dupla é pressionada pelo capitão de polícia (Peter Graves da série original “Missão Impossível”) para resolver o caso. 

Longa policial com cara de série de tv, com uma trama repleta de clichês, cenas de ação fracas e uma dupla de canastrões. Robert Carradine (irmão de David e Keith e filho de John Carradine) é o menos talentoso da família, enquanto Bily Dee Williams teve uma breve fama pelo seu papel em “O Império Contra Ataca” e “O Retorno de Jedi”, mas não emplacou na carreira.  

Dupla Selvagem (The Wild Pair, EUA, 1987) – Nota 5
Direção – Beau Bridges
Elenco – Beau Bridges, Bubba Smith, Lloyd Bridges, Gary Lockwood, Raymond St. Jacques, Danny De La Paz, Lela Rochon.

Um agente do FBI (Beau Bridges) e um policial da narcóticos (Bubba Smith) se unem para investigar um grupo que prega a segregação racial. Este longa policial foi a estreia na direção do ator Beau Bridges, o irmão menos talentoso de Jeff Bridges e tem como ponto principal algumas cenas de violência e a boa química entre Beau e o recentemente falecido Bubba Smith, conhecido pelo papel na série de filmes “Loucademia de Polícia”. A curiosidade é o vilão ser interpretado pelo pai de Beau, o também já falecido Lloyd Bridges.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Crime Delicado

Crime Delicado (Brasil, 2005) – Nota 5,5
Direção – Beto Brant
Elenco – Marco Ricca, Lilian Taublib, Maria Manoella, Felipe Ehrenberg, Cláudio Assis, Zé Carlos Machado, Marcelia Cartaxo, Matheus Nachtergaele, Adriano Stuart.

O crítico teatral Antonio Martins (Marco Ricca) é um sujeito solitário com fama de implacável nas suas análises. Numa certa noite, Antonio troca olhares com Inês (Lilian Taublib) em um bar e logo se aproximam, conversam um pouco e ela o convida para ir a sua casa. Antonio se surpreende quando percebe que a garota é deficiente e anda com auxílio de muletas. A surpresa fica ainda maior quando descobre que Inês tem uma perna mecânica e que ela trabalha como modelo para um pintor (Felipe Ehrenberg) especialista em quadros eróticos. 

Poucas vezes no cinema um diretor deu uma guinada tão grande na carreira. Brant fez fama com três longas policiais muito bons, começando com “Os Matadores”, passando por “Ação Entre Amigos” e chegando ao “O Invasor”, porém aqui deixou de lado o ritmo dos filmes anteriores para criar um trabalho quase contemplativo, que mistura teatro e artes plásticas com cinema. 

Foi uma escolha ousada que agradou boa parte da crítica especializada, mas não foi bem aceito pelo público. É um filme que parece ter sido produzido especificamente para um público que gosta de arte, já que na primeira parte são mostradas partes de peças teatrais clássicas e num segundo momento a história é dedicada ao trabalho do pintor com a modelo, situação artística com forte conteúdo sexual. 

O destaque vai para a participação da atriz Lilian Taublib, não por sua interpretação, mas por realmente ser uma deficiente física num papel de destaque, fato extremamente incomum no cinema. 

É um filme quase experimental, daqueles trabalhos pessoais de diretor, situação que na maioria das vezes resulta num longa ignorado pelo público.    

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Somente Deus Por Testemunha & Titanic (1953)


Somente Deus Por Testemunha (A Night to Remember, Inglaterra, 1958) – Nota 8
Direção – Roy Ward Baker
Elenco – Kenneth Moore, David McCallum, Jill Dixon, Honor Blackman, Alec McCowen.

Pouco lembrado atualmente, esta versão com estilo quase documental do naufrágio do Titanic é uma produção inglesa dirigida por Roy Ward Baker, diretor que faria carreira em filmes de terror da produtora Hammer nos anos sessenta. 

O longa começa mostrando a chegada de vários personagens ao navio, mas não se prende a um principal, apesar de que talvez o mais importante seja o do Segundo Oficial Herbert Lightoller interpretado por Kenneth Moore. Lightoller foi um personagem real que sobreviveu ao Titanic e um dos muitos que deram sua versão sobre o fato. Estes depoimentos serviram de base para esta versão, que foca na tragédia, mostrando o desespero das pessoas tentando chegar aos botes salva-vidas, a dificuldade das que estavam na terceira classe, ou seja, vemos aqui muito do que James Cameron mostrou com um orçamento extremamente maior em 1997, com a diferença de que neste clássico não existe espaço para história de amor. 

As cenas de ação são muito bem filmadas para a época e ainda causam impacto. A única falha é a sequência que mostra o navio afundando por inteiro, na época ainda não se sabia que o navio havia se partido ao meio, já que no momento os sobreviventes já estavam nos botes e no escuro. 

Para muitos críticos este trabalho de Roy Ward Baker era considerado a melhor versão sobre a tragédia antes do filme de Cameron.

Titanic (Titanic, EUA, 1953) – Nota 7
Direção – Jean Negulesco
Elenco – Clifton Webb, Barbara Stanwyck, Robert Wagner, Audrey Dalton, Harper Carter, Thelma Ritter, Brian Aherne, Richard Basehart, Edmund Purdom.

Esta foi a primeira versão de Hollywood para a tragédia do Titanic e além do naufrágio, o roteiro foca principalmente na relação entre o casal Sturges. Julia (Barbara Stanwyck) embarca com o casal de filhos adolescentes para fugir do esposo e morar nos Estados Unidos. O marido Richard (Clifton Webb) consegue embarcar no último instante com o objetivo de ficar com os filhos. A diferença entre o casal é enorme, enquanto Julia quer uma vida simples, Richard é um arrogante aristocrata que adora viver em hotéis de luxo. O drama entre o casal fica em segundo plano quando o navio bate em um iceberg e a tragédia se torna inevitável. 

Quanto ao elenco, vale destacar Robert Wagner ainda bem jovem como um flerte da filha do casal Sturges, Richard Basehart como um alcoólatra e a pequena mais importante participação de Edmund Purdom como Lightoller, o segundo em comando e a única pessoa a se preocupar com os avisos enviados por outros navios de que um iceberg estava na região. 

James Cameron também utilizou algumas situações daqui para o seu “Titanic”, como o romance adolescente, a segurança cega do capitão que imaginava um navio indestrutível, a banda tocando até o navio afundar e a participação de uma personagem rica e vulgar interpretada aqui por Thelma Ritter e na nova versão por Kathy Bates. Esta personagem é baseada na figura real de Molly Brown, talvez a mais famosa sobrevivente da verdadeira tragédia. 

Assim como em “Somente Deus Por Testemunha”, aqui o navio é mostrado afundando por inteiro, mas para época os efeitos especiais foram muito bem feitos, tendo ainda uma bela fotografia em preto e branco. 

O senão é o final que apela para o melodrama de uma forma irreal, situação diferente de Cameron, que com certeza chegou bem próximo do verdadeiro sofrimento daqueles que afundaram junto com o navio. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Celular - Um Grito de Socorro

Celular – Um Grito de Socorro (Cellular, Alemanha / EUA, 2004) – Nota 6,5
Direção – David R. Ellis
Elenco – Kim Basinger, Chris Evans, Jason Statham, William H. Macy, Jessica Biel, Caroline Aaron, Richard Burgi, Noah Emmerich, Eric Christian Olsen, Valerie Cruz.

Hoje o cinema perdeu o diretor David R. Ellis, responsável por longas como "Premonição 2 e 4" e o cult "Serpentes a Bordo", além de ter uma longa carreira como dublê.

O filme começa com o jovem Ryan (Chris Evans) recebendo uma estranha ligação em seu celular, onde uma mulher que diz se chamar Jessica (Kim Basinger) alega que foi sequestrada e está mantida como refém em um local desconhecido. Jessica está desesperada e diz ainda que os bandidos pretendem sequestrar seu filho que está na escola. Ryan acaba acreditando na história, o que dá início a uma correria desenfreada por Los Angeles para salvar a criança e descobrir onde é o cativeiro de Jessica. 

Dois anos antes, o diretor e roteirista Larry Cohen escreveu o roteiro de “Por um Fio”, longa dirigido por Joel Schumacher sobre um sequestro que se passava dentro de uma cabine telefônica no meio da rua. Cohen é um veterano especialista em filmes B, tendo criado obras interessantes como “Nasce um Monstro” e “A Ambulância”. A simples trama de “Por um Fio” fez sucesso e Cohen acabou utilizando uma ideia semelhante para criar a história deste outro filme. 

O roteiro é repleto de absurdos que tentam ser escondidos pelo ritmo acelerado da trama e a ação ininterrupta, especialidade do diretor David R. Ellis, sujeito que não tinha talento para o desenvolvimento de personagens e trama, mas utilizava sua experiência como dublê para criar boas cenas de ação. Entre os absurdos temos a personagem de Kim Basinger fazendo um celular destruído funcionar, além de vários delitos cometidos pelo personagem de Chris Evans em sua corrida desesperada por Los Angeles. 

No elenco vale destacar ainda Jason Statham, desta vez como vilão interpretando o líder dos sequestradores e William H. Macy como um detetive prestes a se aposentar, personagem que tem algumas tiradas engraçadas. 

O resultado é um longa que diverte se não for levado a sério.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Patrulha da Montanha

Patrulha da Montanha (Kekexili, China / Hong Kong, 2004) – Nota 8
Direção – Chuan Lu
Elenco – Zhang Lei, Duobuji, Lianq Qi, Xueying Zhao, Zhanlin Ma.

Em 1996, o jornalista Ga Yu (Zhang Lei) é enviado para as montanhas Kekexili no Tibet com o objetivo de escrever um artigo sobre a Patrulha da Montanha liderada por Ri Tai (Duobuji). Este sujeito comanda um grupo de homens que patrulha a vasta região em busca dos caçadores que estão matando antílopes para vender as valiosas peles. Para escrever o artigo, Ga Yu acompanha uma missão com Ri Tai e seus homens, sem saber que estava iniciando uma perigosa e violenta jornada por uma região praticamente desabitada. 

Com uma fotografia belíssima que explora as paisagens naturais das montanhas no Tibet, este longa é baseado numa história real sobre a matança de antílopes, situação que levou a espécie próxima da extinção. 

A direção de Chuan Lu é perfeita na parte técnica e ainda apresenta uma narrativa que parece ser lenta, mas que na verdade conta a história de forma concisa, sem apelar para cenas grandiosas ou de ação. 

Mesmo com simplicidade, algumas sequências são marcantes, como o encontro das ossadas dos antílopes, a da areia movediça e ainda as situações em que Ri Tai precisar tomar decisões que podem significar a morte de pessoas. 

Por sinal, a interpretação do ator Duobuji como Ri Tai é ótima, ele constrói ao mesmo tempo um sujeito firme que toma decisões duras, mas que no fundo sente remorso, inclusive por ações contra seus inimigos. 

O resultado é um ótimo exemplar do cinema chinês que rende uma história triste e real.